domingo, 28 de junho de 2009

PAPEL SOCIAL DA LINGUAGEM

As manchetes acima tratam do mesmo fato. Entretanto, há peculiaridades em cada uma que diferenciam a maneira de informar para influenciar o leitor. Observa-se que há uma relação unilateral de cada instituição jornalística com quem está por trás da notícia: uma relação intimista mesmo que defende e ataca de acordo com seus interesses. O jornal 1 usa o verbo na voz a ativa e dá a polícia status de vilã no acontecimento. Essa intenção é percebida no tempo em que não se usou a palavra 'policial' em substituição à polícia. Ao que parece, trata-se de tentativa de denegrir a imagem da polícia. A palavra 'trabalhador' é usada no intuito de ampliar o sentido de vítima de quem foi morto. O jornal pode ser, inclusive, partidário de um sindicato dos servidores que lá faziam greve. Aliás, a palavra 'greve' não é mencionada, já que, de certa forma, traz uma carga semântica de tom pejorativo, o que poderia impedir a persuasão do leitor em 'ficar do lado do vitimado'. O jornal 2, ao contrário, usa o verbo (subetendido) na voz passiva, pretendendo demonstrar que ninguém é culpado se outrem 'foi morto'; aparece a palavra 'grevista' que, em sentido amplo, tem sentido pejorativo, como já disse. É como se fosse tudo certo se um grevista morrer, já que grevista é 'arruaceiro' mesmo. Esse jornal, parece portanto, 'estar do lado' da polícia, pois na ocorrência sequer a mencionam. Em suma, infere-se que a língua pode ser usada para persuadir ou dissuadir em benefício de quem melhor a conheça. A informação, portanto, pode ser 'maquilada', demonstrando que podemos dominar e ser dominados através do poderoso instrumento do qual dispomos todos os dias: a linguagem.

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