domingo, 31 de maio de 2009

O PRIMEIRO LIVRO QUE LI.

MEMORIAL

Minha mãe me conta que entrei na escola com apenas dois anos de vida. Com essa idade, é difícil lembrar-se dos primeiros contatos com a escola. No entanto, recordo-me que no Jardim de Infância a escola para mim era um lugar mágico, aonde a gente ia para aprender as letras. Lembro da sensação que tinha ao me arrumar para ir às aulas, do uniforme, do pátio, da merenda. Era tudo muito fascinante. Minha professora não tinha formação específica e nos ensinava através do método que chamamos hoje de silábico. Lembro-me da sua linda “letra” no quadro. Queria escrever daquele jeito. Acredito que a concepção de leitura da professora era aquele em que ler era apenas descobrir que palavra estava escrita. Aliás, esse era o conceito predominante na época, porque minha mãe me ajudava com as tarefas assim, me incentivando a decodificar as palavras. A compreensão dos textos, definitivamente, não estava nos planos. Recordo-me da cartilha enorme de capa vermelha, na qual estavam desenhadas três crianças segurando balões. Em cada balão tinha uma letra e formavam a sequência ABC. Além dessa cartilha, tive contato com a famosa “carta de ABC”, uma espécie de cartilha, que prometia ensinar a leitura em pouco tempo. Os livros aos quais tive acesso nos primeiros anos escolares eram apenas os didáticos: “Novo Nordeste” e “Terra e Gente” eram os nomes de uns de que me lembro. Ler, naquele tempo, era saber o que estava escrito. Nossa professora pedia que a gente fosse à frente da sala e ler “as lições”. Ela fazia interferências durante as leituras de cada um, corrigindo palavras, entonação, pontuação. Isso me dava medo! Em contrapartida, nossa “tia” da escola nos divertia muito com algumas brincadeiras e músicas infantis. Nesses momentos me sentia muito feliz por estar na escola.

Na vizinhança de minha casa, havia uma moça que contava histórias para a criançada da rua. Eram histórias sobre sereias, princesas, reis. Na minha mente infantil, não eram apenas histórias. Cria veementemente nelas como se fossem acontecimentos reais. Lembro que torcia para tudo dar certo no final e ficava triste quando isso não acontecia. Minha mãe também contava mil histórias sobre as aventuras de meu avô na roça, dos bichos que ele enfrentava, dos lugares aonde ia, até do sofrimento que foi sua vida na roça. Ela também lia sobre as histórias bíblicas, as quais me encantavam e algumas até me assustavam, as do Apocalipse, por exemplo. Tinha um amigo que possuía muitas revistas em quadrinhos da “Turma da Mônica”. Eu adorava essas revistinhas e me deleitava na leitura delas. Acredito que meu gosto pela leitura partiu dessas histórias todas e também do incentivo do meu pai que me presenteava com dicionários. Ele sempre falava da importância de estudar. Ainda na infância, lembro do primeiro livro não-didático que li: “Lúcia Já-Vou-Indo”, de Maria Heloísa Penteado. Era a história de uma pequena lesma que demorava muito para fazer as coisas (Sendo lesma, não podia ser diferente!). Nesse livro adorei as ilustrações. O desenho da personagem principal, que tinha anteninhas acima dos cachos de seu cabelo, era fascinante. Gostei muito da parte em que Lúcia foi convidada a um casamento e, quando lá chegou, o casal já tinha filhos. Foi hilário!

No Ensino Fundamental não recordo de aulas em que se valorizasse a leitura e que fosse vista como um ato de prazer. Não havia biblioteca e os professores não liam outros livros aos alunos que não fossem os didáticos. As aulas de Português se resumiam ao trabalho artificial de ensino da Gramática. Tudo descontextualizado. Fazer análise sintática, por exemplo, era um terror. Até entendermos tudo... Por outro lado, havia um livro de Língua Portuguesa, da 5ª série, acho, cujo título era “Reflexão & Ação”, sua autora era Marilda Prates, lembro bem, no qual havia textos que me chamavam a atenção. Lembro de alguns: “As muitas mães de Ariel”, “O Reizinho Mandão” e “Bena, Bena, valeu a pena?”, todos com ilustrações bem coloridas e temas interessantes.

No Ensino Médio e Faculdade tudo foi ficando cada vez mais “seco” com relação à leitura. Tudo passou a ser muito científico e os professores mais preocupados na fixação de conteúdos. Mas, em tudo havia um lado bom. No Médio, lembro que até aquele período da minha vida escolar eu não gostava de Inglês, contudo, ao chegar um professor de nome “Júnior” – diziam que ele era de São Paulo – comecei a ver aquela disciplina de forma diferente. Ele escreveu uma letra de música no quadro e começou a cantar. Era a Música “What a wonderful world”, de Louis Armostrong. Lembro da sensação de querer saber cantar em inglês e entender o que se estava pronunciando. Aquele dia foi marcante; acredito inclusive que hoje sou professor por conta daquela aula. Na faculdade, acreditei que iria encontrar resposta para muitas indagações, mas isso não aconteceu de forma plena (nem poderia), pelo contrário, saí de lá com muitas dúvidas! Nesse tempo, detestava as aulas de Literatura. Os professores “prescreviam” a leitura dos Clássicos e, para mim, era muito difícil ler histórias que foram escritas há mais cem anos. Aquela linguagem, aquela quantidade de palavras arcaicas, aquele rebuscamento... Tudo era um sacrifício... Uma obrigação a se cumprir para se receber as notas da cadeira. Felizmente, uma professora chegou e mudou toda minha forma de pensar em relação aos livros de autores na linha temporal do temido Machado de Assis. “Edna” é seu nome. Cada início de sua aula, ela lia um trecho de um autor clássico que, ao meu sentir, não era uma simples leitura: era um “mergulho” na própria história! Sua entonação, seus gestos, seus olhos brilhando ao sabor do delinear de frases me faziam querer saber da próxima página, do próximo capítulo, do final. Nesse momento, quando ela percebia nossa curiosidade, fechava o livro e dizia: “Amanhã tem mais!”

Hoje, não leio tanto quanto gostaria, mas graças aos fatos positivos que mencionei, sei da importância da leitura. Não me aborrecem mais o Machado de Assis nem José de Alencar, nem Eça de Queiroz, para não citar outros. Tenho lido principalmente os textos científicos relacionados aos programas de formação de professores, dos quais faço parte: o Pró-letramento e o Gestar II. Tenho me atido também aos livros de Paulo Coelho, autor famoso no mundo, mas criticado no Brasil. Gosto dos temas místicos que abordam e, principalmente dos ensinamentos para vida neles contidos.